Para contar um pouco sobre birdwatching e o grande desafio e curtição que é fotografar aves, convidei Claudia Komesu, cuja paixão por fotografia e meio ambiente a levou a descobrir , há anos, uma atividade que hoje é fundamental em sua vida – o birdwatching (observação e fotografia de aves). Neste artigo ela conta o que é birdwatching e dá dicas de como fotografar essas lindas aves coloridas que alegram nossos campos e matas, e até mesmo ambientes urbanos.
Meu nome é Claudia Komesu, 35 anos, moro em São Paulo. Sou editora. Trabalhei para a Publifolha, editora do grupo Folha, e para a LCA, uma consultoria econômica. Sou fotógrafa amadora, às vezes bem amadora, mas totalmente apaixonada pelas aves e, desde as discussões sobre o Código Florestal, fico pensando em formas de ajudar em proteção do meio ambiente. Sou a idealizadora, editora e mão-de-obra da Virtude-AG, um site dedicado à divulgação do birdwatching (palavra inglêsa que significa “observação de aves”), e que traz fotos e depoimentos de outros apaixonados pelo tema como eu. Um trabalho de formiguinha, mas sonho que no futuro ele possa contribuir para haver mais birdwatchers agindo a favor da natureza.
O que é uma boa passarinhada?
Uma boa passarinhada é um passeio em busca de avistamento de aves, uma atividade que lhe traz satisfação. Não estou falando de diversão e de contentamento, é satisfação mesmo, dessas de mudar sua sintonia com o mundo.
Para quem está na fase de lista (somar o máximo de registros de diferentes espécies), uma boa passarinhada é quando você consegue ver uma grande variedade de aves. Quantas? Em lugares de áreas abertas, é fácil ver pelo menos 40 numa manhã. Em um fim de semana com um guia ornitológico dá para ver perto de 100 (se o foco for quantidade), e alguns dias em um lugar como o Tocantins podem render mais de 200 espécies.
Para quem está na fase de fotógrafo, uma boa passarinhada é conseguir uma foto linda, mesmo que seja de uma espécie comum. Aqui entram talento, experiência, boa vontade das aves, condições metereológicas e sorte. E mesmo num momento que você já tem muitas espécies registradas em fotos, sempre vai querer somar uma foto de uma espécie difícil. Podem ser vários passeios frustrados, mas quando consegue (e pode levar anos, ou nunca acontecer), é um grande troféu.
Também há as fases em que você sai com a câmera, mas sem um objetivo específico. O que aparecer, apareceu. A satisfação vem só do fato de sair para caminhar, atento a tudo ao redor, às vezes com o privilégio de passear em lugares silenciosos, apenas você e o vento, o som dos seus passos sobre a terra, o canto e o chamado das aves.
Como se preparar para ser um birdwatcher (e fotógrafo de aves)
A busca fotográfica pelas aves, seja em quantidade ou raridade, permite você ter os prazeres da caçada sem a covardia da morte de quem não pode se defender. E a caçada pode ser bastante ecológica: no tipo de passeio ideal você observa e fotografa a ave sem que ela interrompa seus afazeres e procura não perturbá-la.
O birdwatching também oferece o prazer da disciplina. Planejar o passeio, estudar a lista de aves, viajar para algum lugar, na noite anterior carregar baterias e pilhas, limpar a câmera, pegar o tripé, checar o plate, checar cartão, cartão reserva, separar o protetor solar, chapéu, repelente, picada para insetos (se você é sensível) deixar tudo separado e fácil para sair na manhã seguinte. Separar as roupas de trilha. Pode ser qualquer uma, mas a preferência é por calça comprida e cores discretas, ainda mais se você vai fotografar com outras pessoas que, caso contrário, podem te culpar de ser o espanta-passarinho. Como saio bastante, tenho essas roupas de tecidos tecnológicos (proteção UV, resistentes, macias, transpiram melhor). Tênis ou botas impermeáveis são outra boa aquisição porque até um passeio em um parque urbano com grama molhada pode te deixar com o desconforto de meias úmidas.
Madrugue e keep calm, duas dicas imbatíveis
Acordar às 5h ou 5h30 (ou até às 3h30) dependendo da época do ano e a que distância você está do local do passeio. Tomar café da manhã. Levar lanche, porque quem acorda às 5h, às 11h está morrendo de fome. Garrafa de água. Ou, se você esqueceu o lanche, ou tinha planejado voltar para almoçar, mas o passeio está bom, é possível viver com um pacote de bolachas ou nada. A empolgação faz coisas esquisitas com sua fome e cansaço.
O passeio começa com o dia amanhecendo. Em lugares de vegetação natural, em especial mata fechada, o que você vê das 6h às 11h não se compara ao resto do dia. As aves estão mais ativas, luz mais bonita, várias oportunidades para vê-las se alimentando. Talvez seja verdade até para as aves aquáticas grandes. Na África do Sul, garças que eu só via paradas, uma vez encontrei um bando de várias espécies pela manhã e elas estavam em uma atividade incrível de pesca, havia momentos que era preciso escolher em o que focar.
Uma grande dica para aproveitar mais o passeio é desacelerar. Seja a velocidade do carro, dos passos, dos pensamentos. No começo eu andava como se tivesse que chegar a algum lugar. E olhava em volta, se não havia aves, continuava andando. Hoje eu sei que quem não tem pressa vê muito mais.
Quando uma ave que você queria muito ver aparece, é inevitável a adrenalina subir. É gostoso e emocionante, mas fotografar aves é um desafio técnico (e também de sorte pelas condições de luz ambiente), e nem sempre a imagem fica como a gente gostaria.
Não se engane, não é uma atividade só para pessoas tranquilas. Na verdade, há muito espaço para loucuras, paixão, competição e generosidade
O birdwatching é um hobby bastante difundido no exterior, e usa principalmente o binóculo e a luneta. No Brasil o birdwatching cresce graças às câmeras digitais e a internet. Em especial o extinto Aves do Brasil (www.aves.brasil.nom.br) e agora o Wikiaves (http://www.wikiaves.com.br) aceleraram a divulgação do birdwatching. Os brasileiros gostam de fotografar, compartilhar, exibir as fotos, elogiarem e serem elogiados.
Há mais de 10 mil espécies de aves no mundo. Muitos estrangeiros são loucos pelas listas, e viajam o mundo todo para ver as aves, ou dedicam uma dose considerável de tempo e dinheiro para ter um jardim bastante atrativo para as aves. Os birders, em especial os norte-americanos, podem ser muito competitivos.
Os brasileiros birdwatchers que compartilham minha loucura só querem saber de passarinhar no tempo livre e são fissurados pelas aves. Tenho um amigo que, em lua de mel, considerou se deixava a esposa um dia sozinha no hotel para ir passarinhar num local próximo famoso pelas aves (não foi, e assim continua casado…). Um outro ouviu a vocalização (canto) de uma ave que ele queria muito ver, saiu correndo do hotel com a câmera na mão e, de repente, viu as pessoas rindo e apontando para ele: estava só de cueca, na empolgação esqueceu de se vestir para sair. Outro freou de repente na estrada para não atropelar uma coruja, com isso dois carros atrás bateram no carro dele (por sorte, nada grave), e os motoristas quase bateram nele ao saberem o motivo da freada (nessas horas faz falta não saber mentir).
Câmeras fotográficas
A observação e fotografia de aves podem ser praticadas em qualquer lugar, com um binóculo, ou com uma compacta de R$ 300. Mas o mais comum é virar uma febre, e logo você se vê juntando dinheiro para comprar uma DSLR (lentes intercambiáveis). As marcas consagradas são a Canon e a Nikon. Tenho a impressão de que a Canon anda mais em alta. As duas são ótimas marcas, mas a Nikon nunca lançou uma lente para competir com a 100-400 da Canon. A 80-400 mm da Nikon é bem mais lenta para focar, em especial com menos luz. Há milhares de exemplos de lindas fotos tiradas com a 80-400 mm, mas já usei, e quem já usou não discorda da minha opinião.
Uma das combinações mais populares de DSLR para birdwatchers é a Canon 7D com a lente Canon 100-400 mm. Esse equipamento novo custa em torno de US$ 1.600 o corpo + US$ 1.600 a lente.+ uns US$ 600 de flash. É o conjunto que uso hoje.
Os mais dedicados logo migram para a lente 300 mm f2.8. Tanto a Nikon quanto a Canon têm essa lente, que realmente mostra resultados incríveis. Você pode usá-la com um teleconverter de 2x e ter uma lente 600mm. Mas é uma lente de US$ 6.000, e o certo é usá-la com tripé. Nunca pensei em pedir para o Papai Noel porque lente, câmera, tripé, cabeça do tripé dão mais de 5kg de equipamento, não tenho músculos suficientes para isso.
Já usei a Sigma 50-500 mm (e também a 100-300 mm), ótimas lentes. Se você gosta de Nikon, não compre uma Nikkor 80-400 mm, e sim uma Sigma 50-500 mm VR. (Existe um modelo mais antigo sem VR). As duas lentes estão na faixa de US$ 1.600. Só parei de usar a Sigma 50-500 mm por causa do peso. 2kg só de lente, no fim do dia eu não tinha mais braços para levantar a câmera e fotografar, por isso voltei pra Canon.
Outra opção muito boa é a Nikkor 300 mm f4 (US$ 1.400) com teleconverter de Nikkor de 1.4 (US$ 500) que a transforma em 420 mm. Useia-a durante um bom tempo com uma Nikon D300 e no tripé (essa lente não tem VR). Algumas das minhas melhores fotos foram feitas nessa época.
É chato usar tripé. Ainda mais quando você sai para passear com pessoas que não usam, dá inveja da agilidade e leveza dos colegas. Mas o fato é que se você não tem músculos e prática, com tripé sempre vai sair melhor do que sem. Eu não tenho músculos e faço muitas barberagens, então o certo é usar. Tenho relutado em voltar ao tripé, mas o resultado são fotos tremidas, mesmo com a Canon 7D e ISO alto. Gitzo e Manfrotto são as marcas mais famosas. Meu tripé é um Gitzo GT1930 fora de linha. Meu marido usa um GT3540L (também fora de linha). Procure um tripé de fibra de carbono. A cabeça deve ser pelo menos ball head. Essas de seções são pouco práticas no campo. Um bom tripé custa a partir de uns US$ 300 usado. Os novos estão entre US$ 500 e US$ 900.
Se seu budget é menor, as lentes 70-300 mm da Canon e da Nikon são uma boa opção. As duas têm modelos estabilizados. Da Nikon está uns US$ 560, da Canon US$ 480.
Atenção: os valores desses equipamentos não variam muito. Se você vir um valor muito diferente para um equipamento novo, cheque se não está com um modelo diferente (por exemplo, um mais antigo que não é IS/VR. Há lentes 300 mm com abertura f4, e as f2.8). E tenha certeza da origem: não conheço nenhuma história, mas equipamento roubado pode ser uma realidade.
Não sou muito tecnológica nem ligada em novidades. Na verdade, nem teria dinheiro para comprar esses equipamentos. Só tenho tudo isso graças ao meu marido, o Cristian Andrei, que gosta de fotografia há mais de 25 anos, já fez vários workshops com o Araquém Alcântara, e é um ótimo fotografo amador de paisagens e aves.
Como começar a passarinhar
Há mais de 10 mil espécies de aves no mundo, 1.800 só no Brasil. As aves estão em todos os ambientes, em todos os lugares, e sua beleza, graça, comportamentos oferecem infinitas possibilidades fotográficas. Não se acanhe: experimente e corra o risco de se apaixonar. Fotografar aves é uma das atividades mais prazerosas do mundo.
Para saber mais sobre
- Guias ornitológicos: http://virtude-ag.com/guias/
- Dicas de por onde começar: http://virtude-ag.com/revista2012por-onde-comecar/
- Relatos de passeios para quem mora na cidade de São Paulo ou nos arredores: http://virtude-ag.com/sao-paulo/
A Virtude-AG é um site dedicado à divulgação do birdwatching no Brasil. Lançado em maio de 2012, tem crescido com a participação voluntária de vários birdwatchers dispostos a compartilhar suas fotos, conhecimento e experiências.








Roberto, o post ficou ótimo. Você é um excelente editor e uma pessoa muito gentil. E tem o privilégio de morar em Ubatuba! Espero que as aves continuem lhe trazendo alegrias e encantamento, é um tema sem fim. Parabéns pelo seu site, e muito obrigada pela divulgação. Um grande abraço,
Claudia